Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2006

O Touro Azul

fetch_jpg.jpg


    Esta historia passou-se há muitos, muitos anos num país longínquo... Isso mesmo no reino da fantasia, nesse reino maravilhoso que, de olhos fechados podes visitar, abrindo as assas da imaginação.


      Era uma vez uma menina muito bonita, seus cabelos de cachos louros, faces rosadas, olhos celestes, figura airosa, coração de ouro, tinha o nome de Vélia, e era bem azul o céu da sua felicidade.


Mas um dia, a amargura bateu-lhe impiedosamente á porta, e entrou: os braços invencíveis da morte levaram-lhe a querida mãe.


Decorrido algum tempo o extremoso pai da menina decidiu-se unir-se a uma viuva que também tinha uma filha. Ambas seriam pródigas a lhe proporcionar a companhia, o carinho de que se tornara carente –pensava confiante o pai da linda menina. Era necessário ausentar-se o dia inteiro. E passou a faze-lo sem preocupações. Como se enganara! Como tudo acontecia de forma diferente do que idealizara! Enquanto Vélia era habilidosa, amiga de ser útil, ao contrário, a filha da madrasta passava os dias a bocejar, com a cabeça enterrada nos lençóis. Se falavam para ela, respondia com monossílabas, mal-humorada, recusando-se a interromper a cruel preguiça, sempre preguiçosa, enfadonha, tristonha, tinha falta de beleza e alegria, dos que tudo querem e nada fazem para conseguir


  Preocupada em encher de paparicos a parasita, reconhecendo no  intimo as invulgares qualidades da enteada, a vil madrasta, invejosa e enraivecida  tratava-a  de uma maneira desumana: Espancava-a sem motivo, alimentava-a mal, e obrigava-a a fazer todo o trabalho que deveria ser dividido pelas três. Após concluir a lida da casa Vélia dirigia-se para o campo  com o lento gado bovino. Enquanto o ia alimentando, se não tinha roupa para cuidar, bordava, ou fazia renda. Sofria tudo pacientemente e em segredo, procurando inventar a alegria .«Nem tudo o que me rodeia é mau » - pensava . -«Tenho os campos que o sol doira com ternura, o fragrante aroma dos frutos e das flores, o chilreio dos passarinhos, o zumbido das abelhas, o coaxo das rãs, o canto dos grilos. Gozo da companhia dos animais, o amor do pai que me julga acarinhada. Sinto a satisfação de ver o resultado do meu trabalho. Sei que Deus me criou para ser feliz e contribuir para a felicidade dos outros!...»  e vivia uma felicidade feita de espera e de esperança numa vida melhor.


  De entre a manada sobressaía-se um lindo touro, cujo o pêlo, invulgarmente macio e sedoso, era azul. O touro azul tinha o habito de se deitar junto da jovem, lançando-lhe um olhar vivo, expressivo que lhe causava amável prazer.


Num fim de tarde, porem (olhando tristemente os fios de chuva miudinha e mansa que pareciam querer ligar o céu á terra), sentiu-se invadida por uma onda de desânimo: tinha fome, sentia-se sem forças para trabalhar e sabia que, se não concluísse a tarefa que lhe fora imposta pela atroz madrasta, seria espancada sem dó nem piedade . Por momentos as suas pálpebras tremulas fecharam-se e (como se a coragem começasse a desprender-se dela) duas lagrimas nasceram, brotaram e deslizaram-lhe pelas faces pálidas.


Foi então uma coisa extraordinária, uma dessas maravilhas só possíveis no país dos sonhos, aconteceu.


Com voz bem timbrada, doce, profunda, o touro azul falou-lhe desta maneira:


- Não temas, minha amiguinha, sou um génio dos animais, tenho o poder das fadas. Vejo como és boa e delicada, como a tua madrasta é injusta e cruel para contigo. Quero recompensar-te.


Sem articular palavra, a jovem olhava-o fascinada enquanto o lindo animal prosseguia:


 Sei que tens fome. Introduz a mão no meu ouvido direito, lá encontrarás um guardanapo: Retira-o e serve-te á vontade. Mereces bem todos os alimentos que necessitas para cresceres saudável.


Vélia obedeceu e ficou maravilhada com as iguarias que encontrou. A partir dai a sua vida modificou-se. nunca mais teve fome nem se sentiu só. O génio dizia-lhe palavras ternas, encorajadoras.


 - A felicidade conquista-se dia após dia.—murmurava-lhe.


O tempo passou alegre e veloz como um sonho.     


  Vélia transformou-se numa linda mulherzinha de irradiante  formosura, perante o espanto da malvada madrasta que a  alimentava-a cada vez pior, esperando, talvez vê-la sucumbir, a mingua. sempre ansiosa, olhar sombrio, a sua mimada filha estava (que desespero para as megeras !) cada vez mais desinteressante.


«A minha menina há-de vir a ser bela, rica, poderosa como uma rainha. Tu, nojenta guardadora de vacas, nem de lhe calçares os sapatos serás digna »- rosnava a velhaca, pensando que tinha de fazer qualquer coisa, fosse o que fosse, para que tudo se modificasse. Certo dia, impelida pela desconfiança, decidiu ir espreitar e quase rebentou de fúria com o que observou.


  Exuberante de alegria, Vélia retirava do ouvido do touro azul um alvo guardanapo repleto de apetitosa comida. Enquanto se ia banqueteando ,o lindo animal aquecia-a mansamente com o bafo. Irritada, a perversa mulher emitiu um grunhido abafado e, jurando vingar-se começou a arquitectar um plano diabólico.


 Dirigiu-se para casa e deitou-se. Quando sentiu o marido chegar, rompeu um ruidosos gritos, simulando estranha e terrível doença:


- Ai que morro! Ai que morro! Salvem-me –suplicava com bem fingido desespero.


A cena repetiu-se alguns dias. Foi observada por vários médicos que, como é lógico, não conseguiam descobrir a doença.« o mal que a atormentava». Por fim, a malvada, segurando na mão do marido, balbuciou com hipocrisia:


Sinto-me sem forças. Já vejo a morte. Quero dizer o ultimo adeus às nossas pobres e queridas filhas. – Compôs um arrepio e, com voz cavernosa, continuou, soluçando e gemendo:- Os médicos não conseguiram descobrir o meu terrível mal, um remédio para o  combater, mas eu sei, tenho a certeza, que bem perto de nós, bem ao nosso alcance, se encontra a única coisa que me salvaria: Necessito de comer o fígado do touro azul. Ele é milagroso!...Dá-mo! Dá-mo! Quando o tiver comido ficarei de novo saudável. Quero viver! Que-ro vi-ver . – Fingiu desmaiar .


Terás tudo o que desejas, farei sem demora o que quiseres apressou-se a prometer o ingénuo homem, longe de suspeitar das odiosas mentiras da falsa doente, e não obstante ser sensível à magia do encantador boizinho. Com o coração oprimido, Vélia dirigiu-se ao estábulo, e chorando amargamente, contou  o maquiavélico plano da madrasta .


- Não te preocupes, nada de mal nos ira suceder – serenou o touro azul. – Eu tomarei conta de ti, - Eu tomarei a forma de um cavalo, tu vestirás uma mona de pau, disfarce que tornará irreconhecível, e fugiremos juntos. Teu pai, as próprias flores, todos sofrerão, saudosos da tua falta, mas é indispensável que partamos.


  Durante toda a noite o touro azul deslizou como o vento, percorrendo caminhos arriscados e tortuosos, atravessando montanhas, planícies, vales. A manha resplandecia quando parou numa cerrada floresta da qual se avistara uma grande cidade.


A suavidade do sol outonal começava a inundar a paisagem.


O ar rescindia a plantas e frutos silvestres.


Após ter mergulhado em silencio por alguns instantes, o génio declarou:


- chegámos ao nosso destino. Agora é forçoso que nos separemos. Caminha rumo à cidade que vês além. Lá, procura o palácio real e pede guarida. Não tires a mona de pau a não ser que isso venha a tornar-se indispensável. Ela encobre uma beleza que poderá ser perigosa. Podes sonhar e também realizares o teu sonho. Mesmo longe, conseguirei ler o livro do teu coração. Nunca deixes de ser tu mesma. Vai.


- Adeus, querido touro azul. És a minha boa estrela. Sei que nunca me abandonarás –murmurou Vélia, acariciando com afecto.


Enquanto seu pai em vão os procurava desesperadamente, o touro repousava na floresta, a corajosa jovem caminhou resoluta até atingir a cidade onde encontrou o palácio.


Sem hesitação, bateu à porta e foi atendida pela governanta à qual pediu, com humildade, que aceitasse os seus serviços:


- Encontro-me só, necessito de auxilio. Estou habituada a fazer todas as tarefas caseiras. Por amor de Deus, deixe-me ficar.


Não obstante o aspecto quase repelente da pobre Vélia, a bondosa mulher compadeceu-se dela e acolheu-a  com amabilidade.


À  medida que o tempo decorria, ia verificando, surpreendida, a sua eficácia e primor. Estando, certo serão, sem nada que fazer, a nossa laboriosa heroina pediu que a deixasse tricotar. A governanta acedeu e ficou estupefacta com a beleza da colcha que, em escassos dias, Vélia concluíra. Mostrou-a à rainha, a qual comentou entusiasmada:


- Parece impossível como esta rapariga tão simples, tão rude, tão pouco graciosa, tenha conseguido esta maravilha de paciência, habilidade e bom gosto!


Longe de notar que a sua observação a fizera estremecer, dirigiu-se-lhe  dizendo:


- Coloca a tua obra na cama do príncipe Augusto. É digna dum leito real.


Vélia que já tinha visto algumas vezes o príncipe, sentiu o coração pulsar, enquanto cumpria a ordem. Inadvertidamente, reparou na imagem reflectida num grande espelho de cristal e, com tristeza, concluiu que eram bem justas as apreciações da soberana. Não se conteve e, num gesto decidido, libertou-se da mona de pau.


Oh, que espantosa transformação! Estava mais bela que nunca! Continuou a observar-se com surpresa e alegria, sorrindo de felicidade, sem se aperceber que (quem sabe por encanto?) surgiu o príncipe Augusto este deteve-se a contemplá-la  numa espécie de admiração, maravilhado.


Decorreram alguns momentos de encanto e enlevo até que Vélia viu a gentil imagem do príncipe, tal como a sua, projectada no espelho. Deu um grito aflito , pegou na mona de pau e correu a sete pés para a copa que, num ápice , fechou-se à chave.


Vestiu o disfarce num sobressalto, enquanto a voz do touro lhe transmitia ânimo segredando :


-« Tal como depois da tempestade vem a bonança, também a hora de alcançares a felicidade que mereces há-de chegar».


Simultaneamente o príncipe batia a porta e ordenava altivo:


- Abram, abram, abram!


Por instantes, Vélia não conseguiu arredar pé e a emoção estrangulou-lhe a voz. Sentia a esperança ganhar corpo, uma alegria inédita dentro de si. Depois, recompôs-se, abriu e perguntou:


- Vossa alteza o que deseja?


- A donzela que estava no meu quarto, onde se escondeu?  - interrogou Augusto, lançando-lhe um olhar penetrante e ansioso .


- Aqui não se encontra ninguém alem de mim – esclareceu Vélia, num tom que reflectia sinceridade.                     


O príncipe olhou-a boquiaberto, procurou mas não encontrou a figurinha que tanto o perturbara.


Decorreu algum tempo sem que Augusto tivesse conseguido libertar-se da imagem da encantadora Vélia que exercia sobre si um  irreprimível poder de sedução. Perdeu a habitual alegria, tornando-se pensativo, tristonho.


- Só ela poderei amar, só a ela anseio unir-me. Se tudo não tiver passado dum sonho , duma visão, permanecerei solteiro – Confidenciou aos pais que começavam a preocupar-se com tal pertinácia.


Certo dia , possuído de estranho pressentimento, dirigiu-se a Vélia , perguntou:


- Foste tu que executaste esta colcha? Como conseguiste ?


- Sim, fui. Trabalho desde pequenina. Poderei fazer outras coisas que talvez lhe agradem. Bordar, por exemplo, um lindo lençol – propôs a jovem determinada, vibrando de esperança e de fé.


No olhar e na voz daquela modesta rapariga, o príncipe vislumbrou algo de anormal. Um não sei quê que o estonteava, e responder:


- Terás o melhor linho, e fios de ouro e prata quanto necessitares . apressa-te.


As hábeis mãos da jovem trabalharam com redobrado entusiasmo. Na agilidade dos seus dedos colocou sensibilidade e amor. Passadas poucas semanas tinha o trabalho concluído, o qual deixou o príncipe atónito.


- Vem comigo adornar o meu leito com esta maravilha- disse-lhe brandamente.


Vélia acompanhou-o trémula de emoção e debruçou-se no inicio da tarefa .Tal gesto fez com que a mona de pau começasse a desprender-se, deixando a descoberto uma parte dum corpo airoso e elegante.


Pressentindo que o mistério estava a desvendar-se, o príncipe ordenou :


- Retira esse horrível disfarce que te envolve.  


Nesse instante ouviu-se a voz do touro azul exclamando:


- Chegou a hora! Obedece, Vélia!


Esta com agilidade, libertou-se da mona de pau e perante os olhos do príncipe, surgiu a jovem de extraordinária beleza que tanto o impressionara.


- Ah és tu! bem mo segredava o coração ! – E, num delirante contentamento, apertou-a em doce abraço. 


Vélia, emocionada, narrou a sua historia. O príncipe viu-a comovido e perguntou-lhe com suavidade:


- Queres fazer de mim o homem mais feliz do mundo? Queres casar comigo?


- Como gostaria que isso fosse possível – suspirou sonhadora – mas não passo de uma pobre serviçal!...


O seu nobre e enamorado interlocutor poisou os dedos nos lábios num gesto de quem pede silencio, fez-lhe uma indelével caricia, e retorquiu, olhando-a embevecido: 


- há raios  de luar na brancura do teu rosto, fios de sol nascente nos cabelos que o adornam. Brilham e cintilam as estrelas dos teus olhos. Tens a leveza das borboletas, o perfume das flores, a frescura das fontes, a beleza duma manhã primaveril, a bondade dos anjos. Serás princesa e rainha, serás minha esposa! 


Sem resistir ao ímpeto ardente da sua alma, levou-a à presença dos pais que, refeitos do espanto inicial, não se opuseram ao enlace.


Com o peito a arfar de alegria e gratidão, os ditosos noivos correram em busca do touro azul que os esperava na floresta e se dirigiu a sua pupila explicando com gravidade:


- Este real mancebo andava ao encontro da alma gémea que o completa e eu a ele te conduzi. A bondade, a simplicidade, o apego ao trabalho, a nobreza de caracter que sempre revelaste foram, finalmente, recompensados. A malvadez da tua madrasta e a indolência da filha guardam inevitável castigo. Cumprir-se-á o desígnio da minha missão.


- Gostaria de perdoar-lhes, suavizar-lhe o sentimento. Ajudá-las a tornarem-se bondosas, justas, úteis, felizes – objectou suplicante a doce menina .


O touro azul e o príncipe concordaram comovidos. Este apresou-se a enviar um mensageiro convidando o pai de Vélia, a madrasta e a filha para as festas nupciais que se realizariam com pompa e entusiasmo indescritíveis. Inenarrável igualmente a alegria sentida pelo bondoso homem a quem a saudade entrara no peito e nunca mais tivera um sopro de ventura. Ao inteirar-se dos acontecimentos , quase morreu de felicidade. Abandonando a oportunidade de se emendarem, a vil mulher e a negligente rapariga soltaram um grito rouco, estridente, medonho... como se  todo o desespero, todo o ódio, toda a inveja recalcados tivessem explodido, desfazendo-as em mil pedaços .


Desapareceram e jamais alguém ouviu falar delas.


Os nossos dois venturosos heróis viveram longos anos com o coração repleto do mais terno e profundo amor . Irradiando harmonia, paz, prosperidade... Nunca esqueceram as palavras sábias do touro azul :


  «A FELICIDADE CONQUISTA-SE DIA APÓS DIA!.»              


                               FIM

publicado por pura às 21:16
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2008

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. UM DEFEITO NA MULHER

. Solidão

. se...

. NAO DEIXE

. No Rancho Fundo - ZEZÉ DI...

. para voce k me veio visit...

. ZEZÉ DI CAMARGO E LUCIANO...

. ZEZE DI CAMARGO E LUCIANO...

. Bruno e Marrone

. Bruno e Marrone - Te amar...

.arquivos

. Outubro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Julho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Janeiro 2007

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Novembro 2005

. Janeiro 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds